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sábado, 30 de junho de 2012

DEIXEM-ME FALAR


Texto de Camila Travassos

Não tenho filhos. Também não planejo tê-los. Não como algumas pessoas com as quais convivo: terminar a faculdade até os 25, encontrar a pessoa certa até os 27, casar até os 30, ter no máximo 2 filhos – um casal, claro – até os 35. Vidinha chata essa. Metódica. Metrificada. Plástica. Pla-ne-ja-da. Com direito à lista de coisas-a-cumprir e organograma ilustrando o futuro – de sucesso, claro – alcançado. Foda-se. Sempre mandei a organização da minha vida às favas. Planejamento zero. O lema é: isto dá pra fazer agora, isto é pra mais tarde, e segue o barco. Minha vida é tão sem organização que eu não consigo nem organizar este texto. (O foco não é falar de organização, Camila. É falar de filhos. Ou melhor, falar de formação, educação.)

Não tenho filhos porque pôr uma pessoa no mundo é uma ideia que me assombra mais que instiga. Entretanto, trabalhar na área educacional, ultimamente, tem sido viver forçosamente todas, eu disse todas, as pelejas que é lidar com seres em formação. Não me venham com o papo de que ser professor é isso. Comigo não cola, baby. Pais são pais e têm responsabilidades muito maiores que professores. Pais devem ensinar seus filhos a ter responsabilidade, respeito à autoridade, disciplina, a perder, conceder, conviver. E não professores. Professor ensina disciplina, conteúdo programático, deve demonstrar como o que foi ensinado acontece no mundo, deve estimular habilidades diversificadas do aluno. Isso é o papel de professor. Professor não é educador. Educador é pai, mãe, avós, tios, seja lá quem for o responsável por aquela criança ou aquele jovem. Que ensina o “por favor”, “com licença”, “obrigado”. Professor é professor. Apenas isso.

Aí os teóricos da educação e pedagogos meia bocas piram no que estou dizendo. “Professor tem que ser educador sim, Camila, tem que ser amigo”, afirmam; “Que insanidade é esta que essa menina está dizendo?”, indignam-se. Ora, vejamos. Ser amigo(a) de seu chefe é pré-requisito fundamental para o trabalho? Não. Ter uma boa convivência no trabalho é algo salutar sim, claro; entretanto, isso não implica em ser amigo de/com quem se trabalha. Percebam que não estou pregando o cinismo e a falsidade no ambiente de trabalho. Estou dizendo apenas que existem papéis e funções a serem cumpridas por ambas as partes e que isso não requer uma relação de amizade entre elas; requer sim maturidade.

Certa vez, ouvi um professor fazer a seguinte comparação: um radialista, por exemplo, no cumprimento de sua função, tem o apoio de todos os outros funcionários da rádio envolvidos no programa para fazê-lo ir ao ar, todos estão ali em prol de um único objetivo naquele momento, fazer com que tudo funcione; agora, o professor não, ele é o único que trabalha para uma plateia que não quer assisti-lo e que fará de tudo para que ele não realize seu trabalho. Vocês já imaginaram isso? Você ter que trabalhar para quem não quer que você trabalhe? Se você não é professor, você não sabe o que é isso.

Chegamos, então, a alguns pontos cruciais: ultimamente professor tem assumido responsabilidades as quais não lhe pertencem. Soma-se a isso o fato de ele trabalhar para quem não quer que ele trabalhe. Acrescenta-se pais que acreditam que educar é passar a mão na cabeça do filho e que carinho e afeto são roupas de marca, gadgets de última geração e quinzola no Disney, e escola que visa o lucro gerado pelos altos preços das mensalidades e número de aprovados em vestibulares, com suas provas engessadas e sem o mínimo de reflexão crítica. Por fim, insira tudo isso numa sociedade esfacelada de valores, com individualismo e competitividade exacerbados e com forte influência midiática. Pronto, meus caros, o caos educacional está instaurado.

Não é difícil de adivinhar para quem sobra o ônus disso tudo. Aí o professor tem que ser educador, compreensivo e amigo; precisa cumprir metas e a excelência para que a escola não perca clientes para a concorrência; precisa passar trabalhos extras para aquele aluno que ganhou uma viagem a Orlando do pai em pleno mês de abril e que não pode esperar até as férias escolares para usufrui-la; precisa preparar os clientes para o ENEM e os processos seletivos das universidades em geral e não torná-los competentes e críticos sem que se tenha como objetivo passar em uma prova, pois atualmente educação de qualidade virou sinônimo de a escola que mais aprova.

Não tenho filhos. Amo criança e o maravilhamento que elas possuem diante da vida. Acho fascinante a ideia de formar um ser e contribuir para a constituição de uma pessoa, assistindo à mágica da vida acontecer diariamente na sua frente. Entretanto, ser professora me tem feito desacreditar do mundo e da sociedade em geral. Logo eu que, enquanto professora, deveria crer em um futuro melhor…

DAQUI:
Contra-argumento




3 comentários:

✿ chica disse...

Tá triste a situação!!Credo!!! É fogo e os professores resistem à tudo: mal pagos, desrespeitados, sem condições de trabalho, outras até sem salas de aula dignas... Um horror! beijos,chica

Anne Lieri disse...

Essa situação seria a ideal se hoje em dia não houvesse uma debandada geral da familia com relação as suas responsabilidades.O professor sempre acaba sendo o culpado pela má formação das crianças e isso tem mesmo que mudar!bjs,

Mimirabolante disse...

Fui Professora por 34 anos.....é um misto de prazer e sofrimento....sobrevivi e procuro guardar as melhores recordações !!!!

Evite as drogas!

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